O Fenômeno RAM e o Risco Jurídico na Medicina

O que as faculdades não ensinam sobre a memória do médico?

A formação médica é tecnicamente robusta, mas estruturalmente incompleta. Ao longo de anos de estudo, o profissional aprende a diagnosticar, intervir e salvar vidas, porém raramente é preparado para compreender um fator silencioso que influencia diretamente suas decisões clínicas, sua comunicação e, consequentemente, sua exposição jurídica: a própria mente.

O psiquiatra Augusto Cury, emerge um conceito central para essa reflexão, o Fenômeno RAM, Registro Automático da Memória. Trata-se de um mecanismo cerebral involuntário, que registra todas as experiências vividas, especialmente aquelas carregadas de forte emoção. Na prática médica, isso tem repercussões profundas, cumulativas e muitas vezes negligenciadas.

O que é o Fenômeno RAM na prática médica?

O Fenômeno RAM atua de forma automática. O cérebro registra acontecimentos sem pedir autorização racional, priorizando eventos de alta voltagem emocional. Na medicina, esses registros são frequentes.

Uma intercorrência grave, um óbito inesperado, uma discussão intensa com familiares, uma denúncia ao CRM ou o simples medo recorrente de um processo judicial são experiências que se transformam em registros privilegiados da memória. Esses registros, muitas vezes descritos por Cury como janelas traumáticas, não são apagáveis.

A cirurgia que não evoluiu como o esperado, mesmo que tecnicamente correta, permanece armazenada. A audiência desgastante, a sindicância injusta ou o constrangimento público também. Tudo isso passa a influenciar decisões futuras, muitas vezes sem que o médico perceba conscientemente.

Como a memória automática impacta o risco jurídico na medicina?

A atuação médica não ocorre em um vácuo emocional. Quando a mente está sobrecarregada por registros traumáticos, o comportamento profissional se altera. Do ponto de vista jurídico, isso cria um ambiente de risco sistêmico.

Hesitação e insegurança clínica.

Médicos marcados por experiências negativas associadas a determinados procedimentos tendem a hesitar excessivamente ou, no extremo oposto, agir de forma acelerada para encerrar situações que geram ansiedade. Ambas as condutas aumentam a probabilidade de falhas assistenciais, inconsistências em prontuário e decisões defensivas mal fundamentadas.

Burnout e saúde mental como vetor jurídico.

O acúmulo de registros negativos mantém o cérebro em estado permanente de alerta. Esse desgaste mental reduz a capacidade de atenção, empatia e raciocínio clínico refinado. O burnout não é apenas um problema de saúde, ele é um fator indireto de risco jurídico, pois impacta diretamente a qualidade da assistência prestada.

Comunicação defensiva e ruptura da relação médico-paciente.

A memória emocional influencia a forma como o médico se comunica. Profissionais marcados por litígios anteriores tendem a adotar uma postura reativa, excessivamente técnica ou emocionalmente distante. A literatura jurídica e a prática forense mostram que a maioria dos processos não nasce do erro técnico isolado, mas da quebra da confiança e da comunicação falha.

A gestão da mente como estratégia de proteção jurídica.

Não é possível apagar o passado. Essa é uma premissa inegociável. Contudo, é possível reprocessar experiências e criar registros emocionais positivos, capazes de reduzir o impacto das memórias traumáticas.

Na psicologia de Augusto Cury, fala-se em janelas light, experiências positivas que se sobrepõem às traumáticas e ressignificam a história mental do indivíduo. No campo do direito médico, essa lógica encontra um paralelo estratégico.

A defesa médica moderna não pode se limitar à análise fria de prontuários, normas éticas ou jurisprudência. Ela precisa compreender o contexto emocional do profissional, os gatilhos mentais envolvidos e o histórico psíquico que influenciou aquela tomada de decisão específica.

Defesa médica com visão ampliada e foco em longevidade profissional

Na minha atuação como advogada especialista em Direito Médico, tanto na esfera judicial quanto nos processos ético-profissionais, parto de uma premissa clara: a melhor defesa não é apenas reativa, ela é estruturante.

Defender um médico é, sim, enfrentar processos, elaborar estratégias jurídicas sólidas e proteger reputações. Mas é também ajudar o profissional a não se tornar refém de suas próprias memórias traumáticas. É oferecer clareza, segurança e consciência para que ele continue exercendo a medicina com confiança, técnica e equilíbrio emocional.

Quando o médico compreende como sua mente registra experiências e como isso influencia sua prática, ele passa a assumir o controle da própria história profissional.

A sua trajetória médica está sendo escrita a cada atendimento, a cada decisão e a cada interação com o paciente. O Fenômeno RAM registra tudo. Ignorar isso é aceitar riscos invisíveis. Compreender esse funcionamento é um movimento de inteligência emocional, jurídica e profissional.

O próximo capítulo da sua carreira pode ser de medo e defensiva constante ou de segurança, maturidade e realização. A diferença está no nível de consciência que você escolhe desenvolver hoje.

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